Confidências

Confidencia-me um amigo de longa data da Elis que a Pimentinha teria escolhido duas composições gaúchas, Desgarrados (Barbará/Napp) e Colorada (Barbará/Rillo), para testá-las em shows e, talvez, dependendo da recepção, gravá-las. O que só não aconteceu em função de sua morte.
Que puta frustração!

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Anfiteatro Pôr-do-sol Elis Regina

O João Garcia (Band), o Airton dos Anjos (Patineti) e eu lançamos hoje na Band AM uma campanha.
Por todo o Brasil se homenageia Elis Regina.
Maria Rita, filha da Elis, fará show especial cantando somente músicas do repertório da Elis. E irá se apresentar em Porto Alegre no Anfiteatro Pôr-do-sol.
Aí começa a campanha: pedimos que o anfiteatro tenha o nome da Elis.
Gostaríamos que o Prefeito Fortunatti e os vereadores de Porto Alegre se engajassemem nesta campanha e a inauguração do nome fosse durante o show da Maria Rita.
Quem concordar, entre nessa.
Elis vive, Elis merece.

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Elis, 30 anos

Sinto hoje a mesma emoção, a mesma dor de há trinta anos.
Quando meu filho me avisou, pai, sabe aquela cantora que você gosta? estão dizendo no rádio que ela morreu, o tempo parou por instantes. E o estupor se instalou em mim. Sem querer acreditar busquei comprovação. E comprovado ficou. Meu filho fez 40 anos, portanto, trinta anos é uma vida. Mas parece que foi hoje, daqui a pouco, perto das onze horas desta manhã.
Sempre relaciono Elis e Desgarrados. Desgarrados nasceu há trinta anos, ao contrário da Elis.
E, há trinta anos, eu preparava uma fita para enviar a nossa canção para Elis porque ouvira falar que a estrela, quando vinha a Porto Alegre, gostava de ouvir composições do Mario Barbará. O que se comprova lendo a coluna do Juarez Fonseca em que ele homenageia Elis. Nela, Juarez escreve que hoje, é bem provável que Elis estaria gravando Victor, Nelson, e, entre outros, Mario Barbará.
Nunca imaginei Elis gravando Desgarrados, mas ouvi-la cantando informalmente, como a ouvi cantar Meus olhos na noite em que fizemos uma serenata para nos despedirmos dela, seria a glória.
Se Elis já era o que é ainda hoje, a melhor cantora do Brasil, imagine como a veríamos aos 66 anos?
Impossível. Mesmo sonhando é difícil se saber o  patamar  artístico de Elis  nos dias de hoje. Com certeza, além de uma brilhante carreira internacional, estaria, como sempre fez, descobrindo e lançando novos talentos. E por que não, gaúchos?
Onde estiveres Elis, um beijo. E esta enorme saudade que não se deixa amordaçar.

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Feliz Natal e Ano Novo

“Não deixe que a saudade sufoque
que o medo impeça de tentar…
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando,
fazendo que planejando, vivendo que esperando.
Porque, embora quem quase morre esteja vivo
quem quase vive já morreu”.

Fernando Pessoa

Com os votos de que este Natal seja pra lá de bom e que em 2012, o mundo acabando ou não, possamos nos rever, nos sorrir e nos amar. e fazer muita festa!

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Desgarrados

Era um 13 de dezembro como hoje, uma tarde quente e lânguida de um ano longe, 1981. 
Durante a tarde nos preparamos para a grande final. Uma tarde só de expectativas.
Minha primeira vez em Uruguaiana.
Pela primeira vez na casa de dona Olga, avó do Mário, junto com seus pais.
Minha primeira Califórnia da Canção Nativa.
Ao nos dirigirmos para o Cine Teatro Pampa o nervosismo aflora.
Os aplausos, depois da apresentação, falam em esperança. Mas quem pode saber?
Enquanto esperamos, do lado de fora do teatro, em lugar reservado para os compositores, músicos e intérpretes, os comentários são os mais variados.
Ao ser entrevistado por uma rádio local, ouço o Paulo falando: Dizem que a vencedora é a música do Marco Aurélio, Só restou. O que achas?
O que eu poderia achar? A música é bonita mesmo.
O Quinteto Violado encerra sua apresentação e é chegado o grande momento.
Ao anunciarem DESGARRADOS como a vencedora da Calhandra de Ouro, o que é tensão explode em alegria desvairada.
Nunca a Cidade de Lona se mostra tão festiva e amiga. Nunca a comemoração é tanta. Nunca somos tão abraçados. Tão cumprimentados.
No dia seguinte, meio-dia, enquanto o Mário ainda dorme, embarco para Porto Alegre. No meio da viagem a Folha da Tarde já repercute a vitória de Desgarrados.
Logo tomamos conhecimento que o Quinteto Violado irá gravá-la, e é a primeira de mais de quarenta gravações. Quis o destino que esta primeira regravação fosse por um grupo fora do Rio Grande. Desgarrados estava sendo lançada em Pernambuco iniciando sua caminhada pelo Brasil.
Dias depois, fita rolo na mão, procuro o Mauro Borba na Rádio Ipanema. Graças a ele e ao Niuto Fernando, Desgarrados roda na programação normal e diária da Itapema e conquista o Rio Grande.
Em janeiro de 1982 preparo uma fita para enviá-la para a Elis. Não sei se a Pimentinha, em sua ânsia por novidades, tomou contato com a canção ou se a  morte chegou primeiro.
Fazem trinta anos e é como se fosse hoje.

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Feira&Natal

Estamos em pleno burburinho da Feira do Livro em busca de um livro do Alan Pauls quando ela, sem mais nem menos, me pergunta:
- E o Natal?
- Que é que tem o Natal?
- Ué, não te lembras? Combinamos passar com os meus pais.
- Então passemos com os teus pais.
- Só isso?
- Como só isso?
- Você fala como se o assunto não tivesse importância. Tanto fez quanto tanto faz. Isto não é legal. Nem me agrada.
- Ora, eu não quis dizer…
- Se é indiferente para ti, é porque você não está afim.
- Pelo amor de Deus!
- É isso mesmo. Foi o que entendi. E se é indiferente significa que você está indo pra me agradar e não por que sente vontade
- O que é isto, um tratado filosófico sobre o ir ou não ir à festa de Natal na casa dos pais da namorada? Ou uma desculpa pra não irmos?
- Como uma desculpa? Você quer dizer que eu não quero ir à festa de Natal na casa de meus pais? De onde você tirou esta idéia?
- Do bolso do colete. Da cesta do coelhinho. Ora, você interpreta as minhas palavras conforme a tua ótica e quando faço o mesmo a ideia não te agrada.
- E quem disse que estou interpretando?
- E quem disse que eu…
- Se você não está interpretando, então vocês esta afirmando. E se você está afirmando eu não sei a que atribuir. Ou melhor, desconfio.
- Você não acha uma bobagem estarmos discutindo sobre este assunto quando falta um tempo para a festa?
- Olha ai, bem típico. Vamos deixar como está pra ver como é que fica.
- Ah, Dodói, não faça drama…
- Mas que drama, filomena? Não tem drama nenhum. Se você não quer ir, tudo bem. Eu vou e você vai pra onde quiser.
- Quem foi que disse que eu não quero.
- Você deu a entender.
- Eu disse que se nós combinamos, está combinado.
- Como se dissesse, Tanto faz, pra mim tudo bem, o que se há de fazer?
- Não é nada disso, você está torcendo…
- Eu?!
- Olha, vamos procurar o livro do Pauls e depois a gente conversa com calma, tá?
- O que me interessa o livro do Pauls!
- Mas não é você que queria o livro para pegar o autógrafo por que o cara era lindo de morrer?
- Eu não disse que o cara era lindo de morrer! Se você pensou isto e está com ciúme…
- Eu com ciúme? Mas de onde esta ideia maluca!
- Maluca uma ova! Eu vi bem o teu jeito quando você falou “lindo de morrer”.
- Para com isto, amoreco. Não houve intenção…
- Quer saber de uma coisa? Cansei. Estou com dor de cabeça. Vou embora.
E não venha correndo atrás de mim, que não adianta.
Ouvi perfeitamente o que ela disse se bem que me ficou uma dúvida: no fundo, no fundo, ela não estaria dizendo que era para eu sair correndo atrás dela?Enquanto ela se afasta resolvo procurar pelo livro. Afinal não vale a pena perder o autógrafo de um cara lindo de morrer. De mais a mais, eu poderia pedir para que ele dedicasse o livro para ela. Depois, era só correr atrás.

 

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Penseiros

De mim só restou um pouco e este pouco me é dolorido.

Para se conseguir uma frente, todo o mundo se faz árvore.

Somos os mesmos com os olhos voltados para um lugar inalcansável, mas sem forças, à espera do Messias. E o primeiro inverno se aproxima.

Sentado no banco do jardim, olhando os netos se lambuzarem brincando com os cachorros, ele se sente tranquilamente um infeliz.

Para as crianças Deus coloca almofadas no chão.

Ao se contemplar, decifra-se. É ele o homem, aquele que, ao contrário dos outros, preocupa-se.

E aí o general-secretário declara: Técnicamente isto não é tortura.

E de repente somos o cego em meio ao tiroteio e não sabemos em quem confiar.

O amor é cego, a amizade clarividente.

Os pouco iluminados que me perdoem, mas cultura é fundamental.

As rosas lamentam o tempo perdido na infância.

A sorte cai sempre dentro do mesmo sapato.

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Ana K

Sexta-feira é sempre o melhor dia da semana. Faça sol ou chuva, caiam raios, chovam estrelas. É que no dia seguinte é primavera. É que no dia seguinte o pai ficará mais tempo em casa e ela poderá usufruí-lo. Embora o futebol, a saídacom osamigos, nestes dias sobra dia para ela. Para isso ela se prepara. Chega do colégio e o final da tarde é todo feito de planos. Mesmo que nem todos os planos se cumpram. Dorme antevendo a primavera que se acordará com ela na manhã seguinte. Primavera é tempo de sorvete, de teatrinho algumas vezes e em outras de praça e barcos no lago. Dia de cinema e lá de vez em quando, muito lá de vez em quando, dia de zoológico. O pai a carrega para todo o lado, mas, em alguns momentos, Ana desconfia que é porque ele não tem com quem deixá-la. Mas é só em alguns momentos que ela pensa tal coisa. O melhor mesmo é o verão. O verão é quando o pai sai com a turma para surfar. É a hora da praia, das fogueiras à beira-mar, das cantorias. O pai toca violão como ninguém. Lindo, lindo. Ela corre entre as pessoas, corre até o mar, e quando ele toca seus pés solta gritos de felicidade. Bom mesmo é o verão. E o verão também chega depois da sexta-feira. Ruim mesmo é o inverno. O inverno começa na segunda-feira. Marcos passa o dia inteiro no escritório. E têm os compromissos, as reuniões de última hora as viagens. As viagens são o que há de pior. Ela apanha a boneca e uma valise sempre preparada para estas ocasiões e segue para a casa da avó, para a casa da tia, para a casa de alguém que se sujeite a recebê-la por um dia ou dois. Ana detesta o inverno. Chora durante as noites gélidas, mas está sempre de cara limpa pelas manhãs.

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Atenção

Celso Roth muda sua estratégia.
A partir de agora  jogará com dois atacantes: Miralles e Kleber.
No banco.

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Depressivo-sonhador

O depressivo-sonhador não ganhará nunca o Açorianos de literatura. Feito o Kiefer. Embora o Charles seja um escritor. Relatou o Kiefer, em momento de inusitada descontração, num recinto onde se encontravam algumas pessoas julgando uma cambulhada de textos pseudo-literários, com raras exceções, que sua filha vaticinara o exposto. E à boca de filha, senhores, não há quem resista.
O depressivo-sonhador, ao contrário, não tem filhas. Mas pior, ele sabe. Certeza concreta. Nunca. Mesmo que, conforme afirme o jgcruz, escreva até não mais poder, escreva de madrugada, escreva até doer os olhos, depois mostre a amigos de confiança; no dia em que o desespero passar e o texto for polido o suficiente, publique; muitos vão pensar que é ficção. Pode ser que muitos pensem. Não será o caso do depressivo-sonhador. Estáem seu DNA. Irrecorrível, portanto.
Certo que o depressivo-sonhador imagina que há algo por trás ou, talvez, pela frente mesmo. Que o encare diretamente, olho no olho, mas que ele, por deficiências implícitas, não saberá definir.
Dias atrás o depressivo-sonhador foi a um a escola no interior do estado. Conversou com adolescentes, brincou e cantoucom osmenores. Quase ao final, um destes, cabelos escorridos, olhos escuros, ar de malandro chegou e, abraçando-o, segredou-lhe: Quem bom que você veio, tio. O depressivo-sonhador enterneceu-se. Na volta para Porto Alegre, dirigindo, de quilômetros em quilômetros estacionava para vomitar. Chegando a casa, mal teve tempo para concluir sua primeira e única frase: Mulher, estou mal…, e um bando de rotavirus tomou conta de sua pessoa, acompanhados por gastrenterite e infecção intestinal. Desmaios, febre alta, soro, quase se esvaiu de tanto. Impossível atribuir todo o mal a uma alface qualquer. Deve haver algo por trás ou pela frente, etc., etc. O depressivo-sonhador conclui que enternecimento produz graves e complicados efeitos. Melhor evitá-lo.
O depressivo-sonhador, em suas noites de insônia, que não são poucas, engendra histórias mirabolantes, roteiros perfeitamente acabados, achados estilísticos importantes, personagens brilhantemente desenvolvidos. Rumina-os cotidianamente, perde o sono, a fome, enforca o banho. Enfim, sobrevive unicamente em função de suas espetaculares histórias como se elas fossem um fim. Mas não as digita. Um frio lhe corre pela espinha, levanta-se sobressaltado se, por acaso, a idéia lhe ocorre. Sente medo, muito medo de não conseguir expressar a carga de emoção que o assalta quando a ela se entrega. E se isto acontecer, entrará em uma depressão terrível. Ao contrário, se tudo ocorrer como o previsto ele sonhará, sonhará tanto que a vida lhe será um inferno de tanta expectativa. E tudo, então, se consumirá feito bolhas de sabão.
A casa do depressivo-sonhador está em obras e ele sente um prazer imenso em caminhar, pés descalços, sobre o concreto. Mesmo que uma crise de renite o assole. Tudo está quase pronto, embora nada esteja efetivamente pronto. Nem ele. Também ele se julga incompleto. Agora começou a ter saudades do que nunca poderá fazer em sua vida. Por exemplo, caminhar pela muralha da China, participar da maratona de Nova York. Claro, ele pode passar dez dias em Tabapitanga; visitar a Oficina Brennand,em Recife. Masnada como as altas montanhas da China…
É assim a vida do depressivo-sonhador: não sabe bem por onde anda, nem o que realmente deseja. Ou qual o melhor motivo para se erguer uma barreira e resistir. Tudo lhe parece indiferente, como se algo tivesse se partido em seu interior e ele precisa, urgentemente, colar os cacos. Pra isso é preciso cola da boa e, no momento, o depressivo-sonhador não a possui. Ah, ele aguarda um mail qualquer que mude a história do mundo, mas este mail, ele sabe, nunca chegará. Portanto.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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