Remembranças

Viro e reviro a foto: nela dois meninos, cinco a seis anos, sentados na soleira da porta de uma casa simples, seguram seus ninhos enfeitados com papel de seda de várias cores, à espera dos chocolates. Um deles sou eu.

Onde se encontrará este menino nos dias de hoje?

Certo, amou muito e, nem sempre, foi correspondido.

Certo, correu mundo, aventurou-se o mais que pode.

Em 54 estava em sala de aula quando chegou a notícia do suicídio de Vargas e soube da cidade depredada. Descobriu, entre assustado e medroso, que a vida não se resumia a uma bicicleta, uma bola, um campinho de várzea, um cinema.

Já em 56 vibrava com a vitória da Maria José Cardoso no Miss Brasil e acompanhava o corso pelas ruas da cidade.

Em 64 aconteceu o que todos sabemos. E o adolescente viu um vizinho, amigo de seu pai, ser carregado pela polícia durante a noite. E assustou-se.

Mas em maio de 68 acompanhava a rebelião dos estudantes em Paris. E, no final deste ano, estava no Maracanãzinho, caminhando e cantando uma nova canção, aplaudindo entusiasticamente o Vandré e vaiando o Tom e o Chico.

Em 73 estava no Chile resistindo com Allende.

Acompanhou de perto o garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones ser enviado à morte no Vietnã.

Empolgou-se com as Diretas Já e o comício dos cem mil imaginando a construção de um novo país, mas em 85 seu coração de estudante morria junto a Tancredo.

Em 92 deixou de lado o que fazia para gritar junto ao movimento dos caras pintadas.

Depois submergiu na descrença em relação aos governantes deste país e dela não se esforçou em sair.

Hoje aquele menino é um velho isolado/exilado em um rancho perdido no tempo e no espaço. Tem por amigos um cachorro e um cavalo. Por companheira, a solidão. Por refugio, a biblioteca, e, vez que outra, a noite clara, límpida, estrelada.

Mesmo assim, ao revirar a foto que trago em mãos e fazendo um rápido balanço destes anos, mesmo assim e apesar de tudo, penso que valeu a pena vivê-los.

Parafraseando Pablo Neruda, confesso que vivi.

 

 

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1 comentário

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Uma resposta para “Remembranças

  1. Rovênia Amorim

    Tens bem mais que isso. As eternas palavras!

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