O desafio de publicar

Marcelo Spalding

Publicar um livro ainda é o grande sonho de quem gosta de escrever. Fazemos oficinas, participamos de concursos, figuramos em blogs e sites e newsletters, mas publicar um livro ainda é o grande sonho. Um grande sonho e, para muitos, um tortuoso caminho.

Isso me lembra a menina pobre de uma escola humilde perguntando como fazer para publicar suas poesias. Ou um personagem-escritor de Dom Quixote batalhando para imprimir seu livro. Me lembra a Marô Barbieri e o Mario Pirata, competentes escritores gaúchos e promotores das próprias obras. E me lembra as livrarias modernas, enormes, organizadas, com cheiro de tudo, menos de livro.

É, há um looongo caminho entre o ponto final e o cheiro de papel.

De forma simples, podemos identificar três processos depois do ponto final em um texto. Primeiro, descobrir a dificuldade que é publicar, especialmente pela primeira vez. Segundo, entender o porquê dessa dificuldade (excesso de escritores, escassez de leitores, mercado com leis capitalistas e alto custo do papel são algumas pistas). Terceiro, encontrar uma solução para superar tais entraves.

Muitas obras que o autor considera “imortais” morrem aí, no ponto final. Ficam restritas ao escritor ou aos amigos do escritor. Não, ainda não foram recusadas por centenas de editoras. Simplesmente o autor, ao olhar para o mercado editorial, se pergunta: para que pôr mais um livro no mundo? Será que sou bom o suficiente?

Minha dica – se de cá posso dar alguma – é não desistir tão fácil. Querer publicar um livro é como querer ter um filho, não há nenhuma razão lógica para se pôr mais um filho nesse covil, mas é o sonho de muitos e, se formos otimistas, um bom livro nunca é demais para uma sociedade em formação. Melhor do que desistir seria tomar a consciência do tamanho da literatura, muito superior a qualquer outra arte, e reescrever mil vezes o texto, melhorando-o cada vez mais antes da publicação apressada.

Porque só a literatura compete de forma tão evidente com toda a sua história, uma história milenar. Na mesma prateleira de um romance estará Dom Quixote e Madame Bovary, na mesma estante de um teatro estarão os de Shakespeare e Ibsen. Um conflito, aliás, muito bem representado por Carlos Henrique Schroeder em A Rosa Verde (tema da próxima coluna): “eles continuam ali, rindo, me ameaçando com suas obras grandiosas, criativas, geniais, me reduzindo, intimidando”. Se a intimidação servir de estímulo para a releitura, para a visão crítica do que se produziu, ótimo, estamos no caminho certo.

E então o texto está pronto e relido. Agora sim, pensa a menina, eu, os mil e um escritores por aí afora, agora sim vale a publicação. Aí há três caminhos:

1) enviar para uma editora comercial;
2) inscrever a obra em algum concurso literário;
3) pagar a própria edição.

É evidente que qualquer escritor começará pela 1, mas raramente terá sucesso. As editoras comerciais são mais comerciais que editoras. E nós não somos (ainda) o Pedro Bial biografando a vida do chefe. Então passaremos para a 2. Conheço muita gente que começou por um concurso ou financiamento público, pode ser uma alternativa. Mas requer, além de qualidade, muita paciência.

O terceiro caminho é o mais traiçoeiro e viável. Antes, vale ressaltar que sempre se pagou para publicar (de Augusto dos Anjos a James Redfield). A auto-publicação não é errada e se existe preconceito é pela quantidade de lixo que se publica por conta própria. O que torna traiçoeira esta alternativa são as falsas editoras que mal fazem o papel de gráfica, diagramando e imprimindo o livro para o jovem escritor por um preço muito superior ao que se conseguirá pelas vendas. Especialmente porque, depois do ponto final e do cheiro de papel, há outro problema, a distribuição.

Mas voltando à publicação, ela não atribui, por si só, qualidade a um texto. A gente pensa que publicar trará reconhecimento, mas não basta ver nossa história eternizada em papel. É preciso ter boas histórias, acima de tudo. E bem contadas. As que forem realmente boas, acabarão no papel. Porque o mercado editorial tem lá suas regras, parecidas com as de um banco, uma loja ou um canal de televisão. Ele está atolado no mercado, nas leis liberais deste, e só de vez em quando estica os olhos para a novidade, para a arte. Cabe a nós, iniciantes aventureiros malucos escritores em busca de espaço, aprimorar nossos textos para que se aproximem desta tal arte. E assim sejam percebidos nessas esticadas de olhos do mercado.


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Dicas para quem tem um original pronto e não sabe o que fazer com ele:

1) Procure um bom primeiro leitor, de preferência algum escritor, professor ou leitor exigente que aponte mais defeitos do que qualidades;

2) Envie o texto para uma revisão, preferencialmente profissional;

3) Registre seu texto na Biblioteca Nacional (clique aqui);

4) Se você quiser enviar para editoras e concursos, mapeie quais estão adequadas ao perfil do livro. É importante conhecer a editora, pois você tem mais chances de publicar um livro de contos na Cia. das Letras do que na Sextante, por exemplo;

5) Prepare um original sem erros de digitação, diagramado com fonte de boa legibilidade e espaço no mínimo um e meio entre as linhas; acrescente antes do texto uma breve carta de apresentação sua e, depois, uma sinopse do livro que seja curta e eficiente;

6) Entregue o livro pessoalmente ou, se não for possível, envie pelo correio. E não hesite em enviar para mais de uma editora ao mesmo tempo. Mas se você for aceito por alguma, é no mínimo elegante avisar as demais;

7) Se você optar por uma edição paga, vá adiante, mas cuidado, principalmente, com a editora que vai escolher. Tente se informar sobre suas obras anteriores, converse com autores da editora, procure saber o que ela oferece em contrapartida e sua reputação no mercado;

8) Se você quiser fazer uma edição do autor, tenha em mente que pode ser importante o código de barras e a ficha catalográfica para a colocação em livrarias e até alguns prêmios literários;

9) Cuide, no caso de livros publicados por conta própria, com os custos de impressão em relação a tiragem e com a divulgação e distribuição da obra. Devido ao fotolito, é sempre mais barato o custo unitário do livro para tiragens maiores;

10) Não deixe de continuar produzindo e, especialmente, participando da comunidade literária enquanto seu livro não é aceito por nenhuma editora. Infelizmente ter um nome (re)conhecido é tão importante quanto um bom texto.

Marcelo Spalding

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