Chorar Pitangas

 

 

Aqui em Passa Passa Quatro olhando a imensidão à minha volta penso na finitude da vida. A morte não me é assustadora. Tantas vezes nos encontramos e tanto negaceamos que, a essa altura, até um trato existe entre nós.

Importante é o tanto que a vida me ofereceu e eu não soube aproveitar. Ela passava diante de meus olhos com seus carros alegóricos, sua comissão de frente, seus tamborins, suas mulatas, e eu ali, à beira do palco, o coração ansiando por entrar na festa, mas a coragem não me vinha. Foi preciso me isolar neste rancho entre as paredes da biblioteca; foi preciso aprender com Dom Luís, o Mancha e os meus fantasmas; foi preciso atingir esta idade, para compreender que sim, que eu tinha direito ao que ela me  ofertava.

Importante é o quanto eu fui amado e quanto receei me entregar a estes amores. Como se a todo tempo houvesse uma barreira tênue, invisível, que impedisse a exposição dos meus sentimentos. Vergonha de me mostrar fraco, quando esta fraqueza revelaria a força que eu carregava. Até hoje há um grito cravado em minha garganta insistindo em ser ouvido.

Importante não foi o mundo que eu moldei onde o quase e o talvez não permitiam que enfrentasse precipícios. Mas descobrir que saltar, livre e descompromissado, sem medo dos arranhões e fraturas, era o que a minha alma pedia. E eu perdi o meu tempo sem escutá-la.

De muita importância é do que me dou conta hoje: mais cobrei do que fui cobrado. O freio de mão puxado. A melancolia preenchendo o vazio dos dias. As noites cruzadas em ruminâncias e ansiedades. A impaciência queimando etapas. Foi imperioso que eu amasse para descobrir a dor e seu apetite.

A imensidão à minha frente é a vida que teima em se revelar diante de meus olhos. E foi ela quem me ensinou o mais importante de tudo: cada ano que se desenha diante de nós é menos um ano que vivemos. Por isso, devemos aproveitá-lo ao máximo, sugando-lhe, até o bagaço, o último resto de sumo existente.

É para isto que somos feitos. Não para chorar pitangas.

 

 

Pampianas/ZH.

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BALANÇO

Fazer um balanço é uma sinuca de bico: sempre haverá os prós e os contras (estes em maior número). A bondade, a generosidade das pessoas, nesta época, é desconcertante. E isto não é a vida: a vida é feita de som e fúria. De música e lágrimas. De Villa-Lobos e Luan Santana. Não fosse assim, não haveria graça alguma.

Por isso, em alto e bom som, aqui declaro que as previsões da astróloga superstar americana Susan Miller, feitas em dezembro de 2012, em relação ao signo de câncer (o meu) foram um rotundo fracasso. E não me acusem de distímico!

2013 não foi um ano pra guardar no coração: problemas físicos, problemas de saúde, problemas financeiros. Acrescente-se que, não tendo estes problemas solução em 2013, estarão comigo pelo Novo Ano, o que já me deixa com os dois pés, as duas mãos, os olhos e o coração, atrás em relação a 2014.

Ah, e tem ainda os xiitas e os ecochatos batendo à porta e levando com eles uma pouco de nossa paciência. Mas esta é uma praga interminável e, portanto, não há o que se fazer.

Claro que houve coisas boas: os abraços, os risos, os encontros, os amores, os amigos, os livros publicados e lidos, os CDs lançados, as parcerias, as estréias. Afinal, a vida são altos e baixos, um estica e solta, um aperta e afrouxa. Não apenas curvas e buracos, mas retas. Esta é a dinâmica que rege o mundo e os homens.

Sobre o melhor filme, o melhor livro, a melhor peça, o melhor show, o melhor cd, deixo com vocês. Para mim, o que de melhor aconteceu foram: a Juliana (o melhor presente de 2013) e a Marina (a grande esperança de 2014).

E te cuida, Ano Novo, que nós já estamos chegando!

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Entre Natal e Ano Novo

Deixo de lado Passa Passa Quatro e seus personagens, pois se aproxima uma semana que me traz grandes recordações.

Em 1993, Eduardo e André foram para Los Angeles porque havia mar e eles eram surfistas. E mais que tudo, aventureiros. Trabalharam, enquanto lá estiveram, entregando pizzas. E, por incrível que pareça, se deram bem, muito bem. Em dezembro fomos visitá-los.

Combinamos passar o Natal em Nova York. A noite de Natal foi no Rosa’s Place, restaurante de uma brasileira. Ainda hoje temos as canecas ganhas de presente. Não sei se o restaurante ainda existe, mas, ao sairmos, naquela noite, a neve caía. E sob a neve, alegres pelo encontro, caminhamos até o nosso apartamento na Rua 22.

O André não pode vir, pois não conseguiu licença do emprego. Então, voamos para Los Angeles onde passamos o Ano Novo.

Dos passeios, das aventuras, das emoções, dos descobrimentos, da alegria por vê-los felizes, do reencontro que nos fez mais amigos, extraí o material para o livro Pássaro dos dias de verão, dedicado aos dois.

Em 1994 o Eduardo estava em Paris, estudando na Alliance Française e mochilando pela Europa. Lá fomos nós outra vez.

Durante uma semana o Eduardo tentou nos mostrar Paris por inteira. E quase conseguiu. Fechamos o Natal assistindo a missa da meia-noite na Catedral de Notre Dame. Do enlevamento, do simbólico, nunca mais esquecemos.

André continuava nos Estados Unidos. Por isso, trocamos Paris por Nova York onde passamos o Ano Novo. Próximo à meia-noite caminhávamos em direção à Broadway ansiosos pela grande maçã. Uma chuva mansa, os cavaletes impedindo trânsito na região, os guardas indicando por onde podíamos passar, a multidão que se aglomerava, nada era maior que a nossa alegria. A emoção de estarmos juntos, naquele momento, era maior que tudo.

Ao desembarcarmos no Salgado Filho outra grande surpresa: quase ao mesmo tempo o Eduardo chegava de Paris.

Foi em uma semana destas, entre Natal e Ano Novo, lá pelos idos de 80, que se manifestaram os primeiros sintomas do meu câncer.

 

Pampianas/ZH

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Senhora

É por o pé na Praça da Alfândega e a Senhora se renova.

Alguns fios de cabelos brancos, que ela conserva com orgulho, poucas rugas sobre a pele ainda jovem, o corpo em perfeito estado para a idade, um vestido de corte simples, mas elegante, a pandora bag pelo ombro, e os indefectíveis sapatos de salto alto.

Senta-se em um dos bancos e seus olhos, irrequietos e vivazes, olham a paisagem que a comove e a comoverá sempre.

Nesta época e nesta data, a Senhora se adona da Praça. Da Praça e de seus jacarandás. Da Praça e de suas gentes. Da Praça e de tudo que a cerca.

Olha o tapete formado pelas flores dos jacarandás e a memória se aviva. As lembranças correm à sua frente. Perturbadoras e reconfortantes.

Há quantos anos a Senhora acompanha o movimento todo que se instala na Praça! Há quantos anos ela percorre passeio por passeio para verificar se tudo se encontra nos conformes. Se as pessoas, homens, mulheres e crianças serão bem recebidos. Se tudo o que buscam ali se encontra. O coreto está pronto? O teatro de bom tamanho? As informações dispostas de forma correta? Todos vestem as camisetas especialmente preparadas para a ocasião? Todos estão a postos? Que hoje haverá festa de abertura, discursos, música, comentários. Só não se ouvirá o sino. Que as mãos que carregavam o sino se fecharam. Que o sorriso que o acompanhava se extinguiu. Que a alegria que tocava pelos corredores virou silêncio.

A Senhora suspira. O dia chega para todos e todos chegam ao seu dia. Nisso ela não quer pensar. Não vale a pena. Há uma festa em prontidão e é preciso que todos sonhem mais uma vez. Que sorriam. Que se cumprimentem. Que se abracem. Que permitam que a vida se faça ainda uma vez para que possamos vivê-la intensamente.

A Senhora lembra 1955 quando um quixote trouxe do Rio de Janeiro a idéia. E da idéia à ação não demorou nada. E já no primeiro ano, quatorze foram os que disseram presente. Em poucos anos, os quatorze se transformaram em trinta e um, e logo eram cem. E a Praça nunca mais foi a mesma. E a cada ano uma novidade era introduzida. E em vários anos a chuva surgia para dar o seu abraço. Às vezes, este abraço era tão caloroso que a Praça inundava, mas em nenhum momento alguém deixou de comparecer. Todos entendiam que a chuva era alegria demais e fazia questão de se mostrar. Convidada ou não. Chegou um momento que a Praça se tornou pequena e foi preciso expandir seus domínios até o Cais do Porto. E, se preciso fosse, a cidade seria tomada e, pensa a Senhora, ninguém haveria de reclamar.

A Senhora, tomada por uma alegria incontida, levanta-se e se põe a caminhar pelos corredores. Nestes dias e nesta época seu coração bate com tanta força que os jacarandás a saúdam despejando, sobre ela, suas flores.

No ano próximo a Senhora completa sessenta anos. Uma idade digna. Ela imagina que haverá festas, discursos, saudações, manchetes em jornais, brindes. E todos virão, mais uma vez, até a Praça para, mais uma vez, sentirem-se reconfortados com os livros e autógrafos. Com os amigos revistos. Com as surpresas de novos conhecimentos. Com a alegria de tocar a epiderme de um livro, aspirar o seu perfume, dedilhar suas páginas, arrebatar-se com as histórias que ele nos oferece.

A Senhora sente-se recompensada. O esforço de tantos anos e de tantos valeu a pena. Caminhar pela Praça, cumprimentar as pessoas, fazer agrados em crianças, cantarolar alguma melodia, comer pipocas, tomar um cafezinho, sorrir com a própria felicidade, é muito mais do que ela poderia, um dia, sonhar.

No centro da Praça ela gira sobre si mesma olhando a tudo e a todos, enquanto um coral de vozes sussurra em seus ouvidos: Parabéns, Senhora Feira!

 

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No cafundó das estrelas – Convite

 

 

 

 

 

“se o vento quebra uma esquina
o menino colhe açucenas
se a noite constrói castelos
o menino se ilumina de pirilampos”

Poesia infantil em um livro mágico feito especialmente para a garotada.

Conto com a tua presença.

convite Cafundós

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A morte 2

 

Coloco a caneca com o café à sua frente. Ela a ignora.

– Morrer não é partir. Apenas trocar de casa.

Finjo que não ouço. Um arrepio de frio me perpassa o corpo. Levo a caneca aos lábios.

– Não se beija o morto. Ao morto se agradece pela vida. É uma cerca de pedra subitamente interrompida.

No escuro da noite bordado pela luz do lampião quase não percebo seu rosto macilento. Qual a cor dos olhos? Sei que eles me seguem. Evito encontrá-los. O que desejará com aquela cantilena?

– Não se lamenta o morto. Do morto se registram as virtudes e os inúmeros vícios.

– Não se deve culpar o morto, retruco, afinal, bem ou mal, devo responder às suas provocações. Ao morto se perdoa os silêncios. E o que ficou nas entrelinhas.

Há naqueles não-olhos um sentimento de ausência que me angustia. Dom Luís, em baixo da mesa, rosna. Ela não se move. A dor no peito amainou, embora ainda a sinta.

– Não se julga o morto, continua. Do morto se guarda o último registro. A carteira de identidade e o anel de pedras falsas.

Dom Luís coloca o focinho à mostra como se pressentisse algo. Envolvo a caneca com as mãos na tentativa de aquecê-las. Somos náufragos em um barco que talvez se estilhace contra os arrecifes.

– Não se purga o morto, emendo. O morto é quadro na parede das lembranças. Saudade que acontece em repentes.

A noite avança. Sinto que o sono me abraça. Teimo e resisto. Ouço suas palavras me envolvendo como se fossem tentáculos de um polvo. O frio é cada vez mais intenso. Ou será impressão? Sirvo-me de mais café.

– Do morto não te despeças. O morto é tempo que não te abandona.

A cabeça pende. Luto para não fechar os olhos, mas o cansaço termina por me vencer. Fecho-os por instantes, a cabeça sobre a mesa. Ao reabri-los, não a encontro. Mas a sua caneca se encontra vazia.

Uma última chance? Um mês, um dia? E quem garante que ela não me espera além da porta?

Levanto-me.

– Dom Luís! Vamos!

Abro a porta e um sol esplêndido me queima o rosto.

A explosão da alegria é um presente raro que nem sempre valorizamos.

 

Pampianas/ZH

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A morte 1

 

Acordo com uma gastura daquelas. Tomo um copo de água e me sento na cadeira de ver horizontes. Me deixo um tempo na esperança de o que o fogo por dentro amenize, mas o que aumenta é a inquietude. Tenho setenta e quatro anos e moro num lugar isolado. As preocupações são poucas, mas há momentos em que até um incréu sente receios.

“Você já fez testamento?, disse o sobrinho. Se o fizer, deixe o cachorro pra mim”.

O cachorro está a meu lado curioso pela minha inércia e pelo meu olhar de quem não mede o horizonte, mas vasculha além dele. Em outras ocasiões, ele sabe, estaria na biblioteca, um livro entre as mãos, caminhando entre os canteiros, ou tirando o inço de entre as verduras.

Não almoço, que fome não há. O que sinto não expresso em palavras. A muito custo convido Dom Luís para uma ida ao capão. O Mancha me espera na expectativa de um galope. Não hoje, amigo Mancha, que hoje o galope me puxa pra uns lados que não me agradam.

Gostaria de me abraçar às árvores e nelas me transmutar. Diluir-me nas águas e ir ao encontro das pedras, dos peixes, das margens. Largar-me. Não pensar, que os pensamentos me levam sempre às encruzilhadas. E decidir é o que menos eu quero.

Quase ao entardecer sinto uma pressão pelo meio do peito e um formigamento no braço esquerdo. Bom, penso, se não fiz o testamento até agora, não mais haverá tempo.

Preparo o mate e sorvo um dois, três, de uma só vez, tentando me acalmar. Fecho os olhos e a vida me chega devagarzito, sem atropelos, lembrando fatos, causos, brigas, risos. E o grande amor que não se fez. Ele não poderia faltar nestes balanços de quem se prepara para o grande pulo.

A noite chega tão depressa que me parece um aviso. Dom Luis me olha e seu ganido parece um pedido de socorro. A vontade é pegá-lo no colo e dizer-lhe, Calma, amigo, já passamos por tantas.

Ouço batidas na porta. Dom Luís põe as orelhas em pé antes de se esconder sob a mesa.

Abro a porta. Ali está, olhos baços, pele em rugas, expressão indefinível.

– Entra, dona. Preparei um café bem forte que a noite promete ser longa.

 

Pampianas/ZH

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